O crítico de arte britânico Roger Scruton (1944-2020) foi um ferrenho defensor da beleza, na pintura, na escultura, nas páginas de dois livros, não de teatro, nem de cinema, mas também defendeu que a beleza é tão importante, tão essencial para que podemos sustentar a vida como ela é, que deve nortear todo e qualquer comportamento humano, pautando sempre novas apreensões em torno da simplicidade essencial da beleza. Scruton sabia, contudo, que a boa estética não é exatamente algo que se manifesta organicamente no cotidiano das pessoas. É preciso seguir alguns paradigmas canônicos que não dizem respeito ao refinamento da harmonia plástica nos produtos culturais, justamente para que não se perca a ideia genuína de uma obra de arte, muito diferente de como os marqueteiros entendem que se valem de uma promessa de oxigenação artística para, habilmente, transformar lixo — lixo brilhante e colorido, é verdade, mas lixo assim mismo — em dinheiro, muito dinheiro.

Beleza e feiura são conceitos estritamente rígidos na arte, não permitindo muitas divagações quanto aos parâmetros adotados para classificar uma obra artística. Não tenho medo de ter uma visão adocicada da vida, pois ela é apenas arte — e, portanto, bela — ou que toca em assuntos agradáveis. Cabelo oposto; É justamente pelo jeito como assuntos sérios, sérios são abordados, que a visão de mundo de um artista plástico, escritor, dramaturgo ou cineasta deixa de ser apenas um aspecto de sua intimidade tornada pública para penetrar nos intrincados meandros da cultura pop, sem abdicando da sua erudição em nenhuma hipótese. Eduardo Casanova parece inclinado a dar sua sincera contribuição ao eterno e sempre insubstituível debate sobre a pertinência da arte ousada aos valores estéticos, no intuito de defender um ponto de vista límpido quanto à necessidade da beleza e seu oposto na arte para se colocar à Prova descaramento monolítico e valores distorcidos que ora se propagam estabelecidos, ora pela covardia da inércia, ora pelo conforto do oportunismo. “Peles” (2017) é um festival de tipos grotescos, cabelos salgados que queremos representar legitimamente polêmico, debate espinhoso que não é incomum para o gringo intolerante e se estende por anos, difícil por preconceitos e indigência intelectual declarada.

Grande parte da narrativa de "Peles" lembra ao telespectador a doidice de Almodóvar, mas o logo de Casanova enfrenta o baterista e assume sua responsabilidade intransferível sobre o que vai ser dito. O realizador-roteirista optou por abrir o seu filme com uma crítica à exploração dos corpos em duas frentes principais, que podem desdobrar-se em várias outras vertentes: uma cafetaria idílica apresenta a Simón, um potencial cliente, fotos das raparigas do seu plantel, destacando que muitos são menores de idade, crianças. O personagem de Antonio Durán decide por Laura, uma menina de onze anos, indefesa também por três olhos ocultos com pálpebras. Alguns jantares depois, Casanova passa a ostentar a figura dessa menina, agora mulher, elaborando a princípio grande metáfora da bagunça, relacionada aos olhos de Laura, que só olhavam para dentro, namoravam a si mesmos. Presença constante no cinema espanhol, Macarena Gómez assume uma personagem e rosto de agradável surpresa, ultimamente no jantar ao balcão com Itziar Castro, que surge como uma possível vilã, como o denota o seu comportamento perante uma rapariga com uma anomalia muito sui generis, mas não demora a apresentar também seus complexos e uma tácita rebelião contra seu estado, igualmente abominável entre pessoas que você considera normais.


filme: peles
Endereço: Eduardo Casanova
ano: 2017
Gênero sexual: Teatro
não um:8/10


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