Mostra de SP: filme mostra intimidade de Beth Carvalho – 11/02/2022 – Ilustrado

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“E aquele do moinho, como é?”, ele pergunta Beth Carvalho (1946-2019) uma Cartola numa gravação áudio, apresentada no filme “Andança”. O registro revela uma cantora, estrela do documentário, e uma sambista que não apresenta novas composições que fez — “As Rosas Não Falam” e “O Mundo É um Moinho”, dois clássicos. A princípio, se tornaria um sucesso em sua voz; No segundo, para o compositor, era lento demais para caber no repertório do intérprete.

Tenho jantares como este, absolutamente espontâneos, captando momentos informais de criação artística e convivência entre génios da sambaque constitui “Andança: Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho”, dirigido por Pedro Bronz. Mostra na 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Pauloou explore longamente uma coleção de imagens amorosas, filmadas em câmeras super 8, VHS, mini-dv, k7 e fotos.

Logo não veio, Beth Carvalho aparece como “um museu”Ah, alguém que registra os momentos de sua carreira. E é por meio dessas gravações que a história do artista está sendo contada, desde quando João Gilberto acordou com vontade de tocar violino, passando pela transição da bossa nova para o samba até sua atitude política e consagração como Madrinha do Samba.

O caminho da cantora começa quando ela fala de você encontrou dois bossanovistas em apartamentos na zona sul do Rio de Janeiro. “Musicalmente nasceu, mais o comportamento era muito elitista”, diz ela. “E aqui eu estava preocupado, porque musicalmente, estava lá fora.”

Foram Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus que mais inspirariam a mudança estética de Beth Carvalho, que foi a música “Andança”, apresentada no 3º Festival Internacional da Canção, em 1968, anos encontrados com Cartola e Nelson Cavaquinho. Dois dos nomes mais celebrados do samba, eles surgem em registros intimistas, discutindo composições solicitadas pelo cantor ou contando histórias do cotidiano.

O filme examina o processo de construção do repertório que Beth Carvalho imortalizou em sua voz, tudo fruto de encontros. No fica dúvidas do quanto a cantora era apaixonada pela música brasileira —que na cabeça do tinha não o samba sua expressão máxima—, e principalmente pelos compositores, músicos e sapatilhas com quem convivia.

Há gravações de Nelson Cavaquinho, que a chamam de “a maior compositora do mundo”, mostrando-lhe “Folhas Secas” e “Juízo Final”. Beth se apresenta como uma “garimpeira”, que vai aonde ou o que está. “Os autores, os compositores, estão lá. E eu vou na fonte”, diz ela, antes de aparecer filmando sambistas da Velha Guarda da Portela —entre eles Mancéa, Argemiro, Casquinha, Paulão 7 Cordas e monarca— em busca de músicas para seu álbum “Pérolas”, de 1992.

É interessante perceber como as composições chegam até Beth porque ela tem uma amizade com esses autores, ou que também gera um compromisso de promover cultura pela qual era apaixonada. Um artista aparece levando Clementina de Jesus para seu camarote e cantando “Coisa de Pele”, inédita, com Jorge Aragão, por exemplo.

Ela também reconhece e exalta a importância central de dois negros no samba, dizendo em entrevista que falta “brasilidade” e “negritude” na música brasileira. E parecia preocupada com o funcionamento das gravadoras e com a baixa remuneração dada aos compositores. “Faz uma cantora com um padrão de vida muito melhor do que uma pessoa que deve música a ela.”

Em determinado momento do filme, Beth diz que o Brasil não reconhece suas culturas populares, e que Alceu Valença e Elba Ramalho precisam emergir para que deixem de ser discriminados. Essa vontade de se despir ou sambar para o mundo claramente não é o ímpeto da cantora para registrar seus encontros, como quando Dino mostra 7 cordas explicando as cordas que ele usa para construir seu violino.

Grande parte da nata do samba se divide com Beth ou tempo de pano em “Andança”, ou que de certa forma diz muito sobre a importância da própria cantora para a música brasileira. Mais do que uma performer talentosa, ela era uma aglutinadora de gênios, capaz de reunir em seu ambiente os protagonistas de uma cultura que vivia nos subúrbios, mas não tinha a mesma importância para as elites — por onde circulava o dinheiro.

A história que melhor representa talvez seja ou encontrados como os músicos do Cacique de Ramos, cuja quadra ela freqüenta religiosamente toda a quarta-feira. Ficou fascinada com aquele clima informal de bebida, futebol, baralho e festa com que resolveu levar ou estudar aqueles músicos —entre eles Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Ubirany, Bira Presidente, Sereno e Neoci, entre outros, que depois formaram ou Fundo de Quintal.

Dotada de uma compreensão refinada de dois tambores e dois acordes, Beth notou as transformações estéticas do samba feito com banjo, repique de mão e tantã. Seu produtor, Rildo Hora, esperava levar esses músicos sem experiência para estudar, mas batia ou batia.

“Tenho certeza de que isso é uma revolução”, diz ela. Dali, com o lançamento do disco “De Pé no Chão”, de 1978, que imortalizou as rodadas do Cacique, e foi um dos dois grandes sucessos da carreira de Beth, foi impulsionado pelo hit “Vou Festejar”.

Ela ainda filma seu encontro com Fidel Castro, em 1994, em Cuba, e surge cantando “Virada” em uma das manifestações das Diretas Já, dez anos antes. “Tenho medo de ter um discurso político. Não sei, não estou aqui”, diz o artista, em encontro com amigos.

Ao revelou uma intimidação de Beth, “Andança” acaba mostrando, também, os bastidores de seu próprio samba. Ao contrário de dois documentários pasteurizados que inundam o streaming, ou o filme apresenta pessoas mal nomeadas, eles se preocupam em dar grandes explicações e capturar a espontaneidade que não é o centro de sua criação artística.

Da mesma forma que desconhecemos os nomes que surgem nos jantares, ou o documentário conta uma história de arte justa a partir de encontros e uma paisagem nada marcante da cultura popular — que perdura até os últimos momentos da vida de Beth, quando ela mesma, Com a saúde debilitada, ela subiu ao palco para cantar, mas para isso fosse deitada.

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